Todo mundo é uma história

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Eu pego o taxi tarde da noite no escritório quase todos os dias. Quase todos os dias, quando eu chamo no aplicativo, quem aparece é o Seu José, um senhor querido, de um ponto lá perto, que me puxa a orelha por causa do horário e me fala sobre os seus filhos e sua esposa. Ele esteve sumido por uns dias, me contou que esteve no hospital com amigdalite por causa de uma viagem de moto na chuva. Ele tem um sotaque acentuado, mas eu nunca havia perguntado de onde ele era. Ontem, por algum motivo, eu perguntei e ele já soltou um “mas eu nunca lhe falhei da minha história”? E então ele me contou.

Me contou que veio pra Florianópolis há mais de 30 anos, fugindo da ditadura de Pinochet, no Chile. Que era jovem e quando a ditadura começou ele estava no exército, cumprindo serviço militar, mas quando saiu, viu um país violento, triste e em crise. Era o cenário do seu país. E decidiu que não queria viver mais lá. Então veio para o Brasil que também vivia em uma ditadura, mas segundo ele, “não se comparava” à do seu país. Aqui fez a sua vida e formou a sua família. Daí me contou também que enquanto seus pais viveram, ele ia ao Chile uma vez por ano, mas após o falecimento de ambos, não retornou. Com seus irmãos conversa via Whatsapp e Skype, mas desde que saiu, nunca mais viu o país onde nasceu como seu. “Não tenho nada a me apegar por lá.” Falamos um pouco mais sobre as mudanças econômicas da última década no Chile e da política brasileira.

Cheguei em casa, mas não desliguei. Fiquei pensando no seu José e na sua história. Até ontem ele era apenas o taxista do ponto perto da agência. Mas ontem ele foi ressignificado pra mim por conta de sua história. Foi como se eu estivesse conhecendo uma outra pessoa.

Pensei em mim mesma, no que eu já vivi e no que poderia ser a minha história. Fiquei pensando se eu já tinha vivido a minha grande história de vida ou se a graça dela seria de pequenas histórias.

Pensei também nos anônimos pelos quais eu passo todos os dias, para os quais eu nem olho direito e deixo correr. Pensei em quantas histórias eu posso ter deixado de conhecer e quantas eu ainda irei descobrir. Fiquei pensando também se uma história só se tornava uma história quando era bem contada. Meu chefe tem muitas histórias, sabe contar. Meu pai tinha muitas histórias, os outros contavam. Ou não? Ou todas as histórias são boas histórias, o que precisam é ser ressignificadas?

Da alegria e da melancolia, da fartura ou da ausência, da calmaria ou do olho do furacão, todos tem uma. Todo mundo é uma história.

Prometi prestar mais atenção àquelas pelas quais eu cruzo.

Relatório Mundial da Felicidade 2016

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Há algumas semanas, saiu a atualização anual do Relatório Mundial da Felicidade, o reporte que classifica 156 países do mundo por seus níveis de felicidade. Esse é o quarto relatório publicado, em comemoração ao Dia Mundial da Felicidade, da Organização das Nações Unidas, 20 de março. Nem preciso dizer o quanto eu amo essa data.

A cada edição vem crescido o interesse nesse documento, em consonância com um interesse global em fatores subjetivos como bem-estar e felicidade nos índices de desenvolvimento humano. Felicidade tem virado política pública mundo afora.

O primeiro lugar é da Dinamarca, seguido pela Suíça, em segundo, e a Islândia (morro de vontade de conhecer), em terceiro. O Brasil, em 2016, aparece em 17º lugar (caiu uma posição em relação ao ano passado), demonstrando que, apesar da profunda crise que vivemos e do aumento da distopia provocada por ela, ainda estamos entre os povos mais felizes do mundo.

Os indicadores de construção do relatório passam pelo Produto Interno Bruto (PIB) per capita, a expectativa de vida saudável, a rede de proteção social, a percepção de corrupção (xiii), a liberdade para tomar decisões e a generosidade do povo.

No documento, ainda são realizados apontamentos sobre ética e desenvolvimento sustentável.

O Relatório Mundial da Felicidade é um documento obrigatório para entender como ela é predominantemente social e pode ser baixado na íntegra aqui.

As palavras-chave do consumo em 2016

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Depois de muitas experiências e de transformações profundas nos modelos de consumo, as pessoas sabem o que querem e para reconquistar sua fidelidade – perdida há algum tempo – será necessário bem mais que um discurso engajador.

Contexto, experiência, status, inteligência e consumo sob demanda. Eis as palavras-chave do consumo em 2016. Presta atenção nesses destaques listados pelo trendwatching.com. Eles dizem exatamente qual será o próximo desejo do SEU CONSUMIDOR:

1. Não é novo, mas vem redesenhado. Os beta-testers que antes de todos experimentavam e cocriavam soluções simples se tornaram os primeiros consumidores, os mais especiais, aqueles a quem as marcas confiarão seus melhores, mais complexos e incríveis produtos para validar, testar, experimentar e assegurar relevância. É preciso coragem para apostar e escolher os consumidores ideais, que se tornarão evangelistas, que falarão com autoridade e que darão sentido ao sonho de comunidade. Não os compre. O trendwatching chamou essa tendência de status tests. E atenção: ela será um condicionante essencial de inovação.

2. Onipresença? Sim! A gente já quebrou com ela, mas ela juntou os cacos e voltou. Voltou inteligentona, voltou Internet das Coisas, voltou sabendo exatamente onde falar. Há um forte movimento de resgate do conteúdo nativo – como esse que você lê aqui, por exemplo – e, ao lado dele, desenha-se um forte movimento de contextualização das estratégias. Eu acho bárbara essa preocupação das marcas em entender e identificar as oportunidades. Um emoji de pizza ser suficiente para se tornar o pedido de pizza. Consequência direta da ascensão mobile? Siiiiiiiiiim! Seus canais são aqueles por onde transitam e querem estar seus consumidores? Pensa nisso!

3. Mais que discursos, grandes e escandalosas ações que reflitam fielmente qual são os valores das marcas. Ações efetivas, que transformem realidades, que envolvam colaboradores, que ajam em comunidades onde é necessário agir. E, de suma importância, que ajam também em sua própria comunidade, empoderando, fomentando seu crescimento e demonstrando humanidade. Isso não pode ser fajuto, não se sustenta assim. A cultura interna de uma organização é seu bem mais precioso. Queremos que ela se reflita em “fatores uau”, não queremos?

4. Use os seus recursos tecnológicos para oferecer às pessoas soluções inteligentes para seus problemas cotidianos. Pense nelas, coloque-as em primeiro plano. O seu produto pode ser excelente, mas se ele não for necessário, se ele não conversar com o dia a dia, ele não se sustenta. Com grandes ou tímidos investimentos, há sempre alguma coisa que pode ser feita pelas necessidades humanas mais essenciais ou utilitárias. Boa tecnologia, desenvolvimento humano, sabe. Essa frase aqui arrebatou meu coração: pare de ver o mundo através da lente da tecnologia e comece a ver a tecnologia através da lente dos desejos e necessidades humanas básicas (stop viewing the world through the lens of technology, and start viewing technology through the lens of basic human needs and wants).

5. Já faz parte do cotidiano das pessoas que vivem a economia criativa há algum tempo e agora se alastrou pelas comunidades de financiamento coletivo uma tendência que é incrivelmente corajosa (conversa com a primeira, aquela da experimentação) e se autovalida diariamente: a ressignificação da compra e da percepção de valor. Oferecer às pessoas formas mais democráticas de consumir, atribuir autoria, brincadeira e empoderamento ao produto comprado é a essência dessa proposta que eu acho INCRÍVEL!

Quanto mais conhecimento adquirimos sobre determinado assunto, mais exigentes em relação a novos conhecimentos nos tornamos. Nossos mergulhos se tornam mais profundos, buscamos incansavelmente outros olhares e as perspectivas mudam monstruosamente. Assim somos também como consumidores. Experimentamos, conhecemos, nos empoderamos, nos vemos representados e cada vez mais esperamos ser surpreendidos e encantados.

Encantem-nos!

O reporte completo com exemplos tá aqui, ó.
O texto original eu publiquei aqui, ó.

#DivasConecta Desconecte-se para se reconectar

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Há alguns dias, uma liminar de justiça determinou o bloqueio do Whatsapp no Brasil por 48 horas por causa de um processo judicial. Obviamente o bloqueio não durou muito tempo, mas seria bom se esse “detox” tivesse durado o tempo previsto. Ainda que coisas importantes sejam tratadas pelo aplicativo, ainda que ele seja uma ferramenta de negócios, ninguém fica incomunicável e isolado do mundo sem uma conexão. O que não sabemos mais é como fazer isso. Desacostumamos a ligar, a enviar um SMS ou utilizar outros canais para nossas conversas. Tudo se tornou instantâneo. E, com isso, tudo perdeu um pouco do sabor também.

Quer fazer um exercício sobre isso? Imagine que você está preparando um delicioso espaguete al dente, coberto com molho de tomate fresco e manjericão, um toque de pimenta rosa e bebendo uma taça do seu vinho favorito. Ao fundo, uma música gostosa. Agora imagine que você chegou correndo em casa, jogou um miojo na panela e, para não comê-lo apenas com o tempero artificial que veio junto, você jogou uma colherada de requeijão por cima. Você bebe rapidamente uma cerveja na garrafa – ou um copo de refrigerante -, porque precisa ainda fazer muitas coisas. Qual você prefere? O primeiro, óbvio. “Mas não dá tempo pra ele”, você me diz. Eu digo que dá, mas você desaprendeu a usar seu tempo. Eu desaprendi. Antes da invenção do instantâneo, preparávamos nosso jantar.

Não defendo o fim das conexões digitais, ainda porque elas são meu trabalho e eu sou apaixonada por ele, mas sugiro, pra encerrarmos 2015 e iniciarmos 2016 reconectados, que a gente repense a qualidade dessas conexões, que façamos mais desse exercício de ficar sem Whatsapp por alguns instantes, que sejamos nós a definir o tamanho da presença dos aplicativos no nosso cotidiano. A nossa própria presença.

Originalmente publicado no Caderno Divas do dia 27/12/2015.

Foda-se a resiliência e enfia esse autocontrole no cu

Optimized-art-graffiti-abstract-vintageDesde que tudo virou um discurso motivacional piegas, algumas expressões ganharam os holofotes. Essas duas à exaustão. E à exaustão também estão indo as pessoas ao nosso entorno por causa delas.

Na universidade, uma amiga pesquisava resiliência, pelos idos dos anos 2000. Era a primeira vez que eu ouvia e entendia o conceito, bonito, forte e nascido na psicologia. Conversávamos muitas horas sobre aquela capacidade do ser humano de se reconstruir, de encontrar conforto e se “desamassar” depois de choques, perdas e situações pesadas. E era incrível ouvir seus relatos de campo, as histórias de pessoas que deram voltas absurdas e como elas tinham cicatrizado de seus traumas.

Só que então a palavra caiu no jargão motivacional daqueles empreendedores de sucesso e meninos prodígio. Então ela caiu também numa espécie de cristianismo de autoajuda com fortes raízes germânico-protestantes. Ela virou dar a outra cara, aguardar o galardão do céu, superar toda sorte de “filhadaputagem” da vida e transformou as pessoas em baratas. Ela esgotou.

Da mesma maneira, o autocontrole. Não pode chorar porque é coisa de mulherzinha (!!!), não pode reagir porque é coisa de desequilibrado e antiprofissional, precisa manter a aparência bonita e o sorriso sereno porque ninguém confia em quem perde o controle, em quem grita, em quem chora, em quem se emociona. Ninguém confia em quem demonstra muita humanidade. Você pode estar à beira de um colapso, mas continue a nadar e finja que está tudo bem. E as pessoas estão fingindo. E enquanto elas fingem, elas reforçam esse discurso e causam mais danos. E as cabeças vão se desgraçando. E isso se torna irreversível!

Essa resiliência é falsa, esse autocontrole não passa de uma suposição e isso tem causado um mal estar social tremendo. Por que é proibido sentir, falar e dizer que dói? Por que é preciso “engolir o choro” como nos ensinam desde pequenos?

Eu dispenso esses discursos e quero pessoas com mais autenticidade, mais verdade própria e sentimentos expostos. Quero abraçar para ajudar a curar feridas, mas não vou passar pomadinha anestésica em ninguém. Nem em mim mesma.

Então cuida aí você que é influenciador ou influenciadora, cuida aí com seus conselhos, suas listinhas e suas motivações no pain, no gain. Não são máquinas, são pessoas.